O TODO-PODEROSO

Quem ainda não assistiu o filme “O Todo-Poderoso”, com Jim Carrey, estreado em 2003? Para mim, além de ser cômico, é um filme profundamente teológico. Teológico? Você deve estar me perguntado. Sim! Quando vi o filme lembrei-me de imediato das palavras de Jesus quando disse que “se estes se calarem, as próprias pedras clamarão”. E, é claro que Jesus não estava referindo-se a nenhuma produção cinematográfica de efeitos especiais, como em “Senhor dos Anéis”, onde coisas inanimadas falam e andam. O que Ele estava dizendo é que, de onde não esperaríamos que viessem mensagens significativas, ou vozes proféticas, obteríamos  verdadeiras mensagens divinas. Ou seja: muita coisa e muita gente descredibilizada por muitos poderia tornar-se uma voz profética de Deus na terra. Neste filme, o teólogo temporário, Jim Carrey, nos dá algumas lições. Se não, vejamos:

A primeira lição aprendida e ensinada pelo próprio personagem é de que Deus não é a causa primária de todas as coisas. O cômico no personagem de Carrey é que ele reclama e acusa a Deus por tudo de ruim que lhe acontece; principalmente o seu insucesso profissional. E, quando Deus se manifesta a ele, ele não crê; se não depois de Deus provar ser Deus. Esta realidade, vivida pela maioria de nós, é ilárica em si mesma. Ou seja: pede-se a manifestação de Deus e, quando ele se manifesta, duvidamos dele. Isto revela que o que queremos na verdade é só reclamar; nada mais.

A segunda lição aprendida é que Deus não interfere no livre-arbítrio humano. Quando “Deus” deixa o seu poder nas mãos do reclamante para ver se ele faz melhor, deixa uma recomendação clara: a única coisa de que o “Todo-Poderoso” não poderia mexer era na liberdade humana. Daí, ele conseguir fazer o seu cachorro urinar sentado no vaso lendo jornal, mas não conseguir conquistar sua namorada de volta. Isto só foi possível fazer como homem, através da persuasão. Não foi isso que Jesus fez através da encarnação? Persuadir a humanidade de seu amor ao invés de conquistá-la?

A terceira lição está no fato de que Deus não é uma fábrica de milagres e que não pode sair dando sim a todo o mundo. Pensar num Deus que dá sim a todas as petições é pensar em um Deus irresponsável e inconsequente, como se mostra o personagem de Carrey. Quando o personagem de Carrey se vê na responsabilidade de responder todas as orações do mundo, ele resolve dar um sim para todos, a fim de não ter muito trabalho; e, como resultado causa um verdadeiro caos no mundo. Isto me ensina que não posso crer que Deus sai por aí respondendo positivamente todas as orações. Simples. Ele estaria criando muito mais problemas do que solucionando-os. A lição principal deste fato é que os milagres não são para serem realizados “aos baldes”, pois os mesmos criariam uma desordem universal, como mostra o filme. Sem falar nas questões relacionadas a distribuição injusta dos milagres. Ou seja: por que uns recebem e outros não, mesmo tratando-se de pessoas que creram, buscaram e se sacrificaram igualmente pelo recebimento do milagre?

A quarta lição está no fato de que Deus ao dar seus poderes ao personagem reclamante, está mostrando-lhe que o ser humano foi criado um ser responsável pelos seus atos. Apesar de nenhum ser humano receber poderes iguais ao do personagem de Carrey, todos nós fomos criados com liberdade responsável. Ou seja: com autoridade delegada. Isto nos revela que somos muito mais responsáveis pela trajetória de nossas vidas do que o próprio Deus ou a própria natureza. O que Deus deseja é que o homem encare a vida com mais responsabilidade; deixando de lado a síndrome adâmica da transferência de responsabilidade. Ao invés de ficarmos sempre culpabilizando alguém por tudo na vida (de bom ou de ruim) deveríamos encará-la com mais responsabilidade.

Se não conseguirmos ouvir a voz das pedras que clamam, como poderemos discernir a voz de Deus?

Adriano Moreira

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