AFIRMATIVAS INCONTESTES E INQUIETANTES

 

As bençãos de Deus não estão atreladas a impecabilidade humana. Isto significa dizer que Deus é bom independente de quem sou. A graça divina já nos garante o seu favor (perdoe-me a redundância). Ele “faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos”. Isto significa dizer que o desejo de Deus sempre foi, é, e será o de abençoar. Assim como o meu pecado não impede-me de ser abençoado por Deus, minha santidade não me faz merecedor de sua benevolência. Todavia, a graça de Deus a mim manifesta não me é oportuna para dar “ocasião a carne”; pois, assim como é fato que “onde abundou o pecado superabundou a graça”,  também é verdadeiro que “se já morremos para o pecado, como viveremos ainda nele?” – foi a pergunta de Paulo aos Romanos, após a afirmativa anterior.

Soberanamente Deus decidiu criar o homem como um ser responsável. Isto é: o ser humano foi criado com liberdade responsável. Falo de liberdade; não de autonomia ou independência. Não há qualquer anulação da soberania divina na aceitação da liberdade humana; como de igual consorte, não se anula a liberdade humana quando se ressalta a soberania divina. Quando dois temas aparentemente contrastantes ou paradoxais se evidênciam, seja nas Escrituras ou não, apontam para um único caminho: do equilíbrio. Basta pensar nos paradoxos como dois pilares de uma mesma estrutura. Brian McLaren diz que “a criação divina está amadurecendo com liberdade e também com limites, sob o olhar atento de um pai cuidadoso”. Penso que devemos imaginar que Deus criou o homem como um pai planeja criar um filho: a criança recebe limites e orientação, mas é livre para viver sua própria vida.

O “Amanhã” depende muito das escolhas de “Hoje”. Quero dizer que o futuro não está pré-determinado por Deus. Muito pelo contrário, ele nos convida a transformarmos este mundo pela mensagem do Evangelho. E quanto as predições escatológicas? Não são elas pré-determinações divinas? Sem descrer no caráter futurístico de muitos textos bíblicos, também os vejo como advertências e promessas dadas a nós. Recuso-me a enxergá-los apenas como predições, por duas razões. Primeira, porque as predições tem a tentência de criar pânico ou ansiedade. Particularmente predições catastróficas de juízo e condenação. Segundo, pelo fato de originarem acomodação e preguiça: em especial as prognosticações referentes a um futuro promissor. Na visão de McLaren “as advertências de Jesus e da Bíblia nos dizem que, se fizermos escolhas tolas ou injustas, consequências ruins virão em seguida”. Este foi o trabalho dos profetas no Antigo Testamento.

As intervenções divinas na história cumprem propósitos eternos; e, não pedidos especiais. Normalmente se pergunta por que oramos? Esta pergunta se origina de duas incógnitas. A primeira, é que se Deus já pré-determinou tudo, não há mais pelo que orar. Já, a segunda, é que se Deus é movido pelas nossas orações, ele passa a ser manipulável como os deuses das religiões pagãs. Há quem diga até que Deus muda de planos. Prefiro caminhar por outra via. Quando vejo na Bíblia Deus dizendo algo do qual, pela razão de um arrependimento ou mudança de atitude do homem, depois se “arrepende”, como na linguagem antropopática das Escrituras, não consigo ver, se não, o cumprimento do verdadeiro propósito por trás de tudo. Por isso, não creio que Deus mude de propósitos mediante a mudança humana, mas que o “modus operandi” dos propósitos divinos operam em duas vias:

A primeira via é preventiva: quando há uma predição da qual Deus não cumpre pelo fato de o homem se arrepender, não vejo Deus “mudar”. Ele na verdade ao predizer uma destruição, ruína ou juízo e, como resultado, provocar mudanças de atitude nos endereçados da mensagem, está cumprindo o verdadeiro propósito: suscitar arrependimento no homem. Isto é prevenção. Daí, Deus não mudou porque o homem mudou. Este sempre foi o propósito inicial. Esta foi a realidade de Nínive, cuja situação Jonas não entendeu.

A segunda via é corretiva: quando as predições de castigo e juízo se cumprem, Deus cumpre seus propósitos disciplinares e corretivos. Nem sempre as advertências são o bastante. Há casos que só a disciplina cura. Israel, após várias mensagens preventivas de Deus, só foi curado da idolatria no cativeiro babilônico. Na disciplina e correção Deus também cumpre os seus propósitos (Hb 12.4-11). Daí afirmarmos que “nenhum dos seus planos podem ser impedidos”. E que nEle “não há mudança nem sombra de variação”. Ou seja: quando pensamos que ele está mudando de propósitos por causa do arrependimento humano, é que de fato ele está, na mudança do homem, cumprindo o seu grande propósito.

Adriano Moreira

A síndrome de Nazaré segundo Jesus

“Não é este o carpinteiro, filho de Maria… E escandalizavam-se nele” (Mc 6.3)

Este é o texto de Marcos onde encontramos o verso conhecidíssimo de Jesus dizendo que “Não há profeta sem honra se não na sua pátria, entre os seus parentes, e na sua casa”. Isto se confirma pelo fato de que os de casa se acostumam com o fato de terem o profeta sempre por perto, sempre disponível. O contrário de qualquer um que venha de fora. Infelizmente esta familiarização com o dom da graça trás a síndrome de Nazaré para a nossa existência. A experiência que Jesus passou e ensinou diz que esta síndrome se manifesta pela:

Imperceptibilidade da Graça no outro. Os contemporâneos e conterrâneos de Jesus foram incapazes de enxergar a graça divina em sua vida. Foram incapazes de discernir que a graça divina, embora acessível a todos, manifesta-se de forma individual, particular e fenomenal. Ou seja: cada um recebe de Deus capacitações diferentes como dom da Graça. É tudo Graça; porém, original! Os que não compreendem esta verdade vivem perguntando a si mesmos: “Por que no outro e em mim não?”

Inveja da Graça manifesta no outro. No fundo o que se manifestava no íntimo dos nazarenos era o desejo de ser o que Jesus era. Está onde Jesus estava. Fazer o que Jesus fazia. Era o desejo de Miriam e Arão: o desejo de ser o outro. É extremamente perigoso quando deixamos de nos enxergar e só passamos a enxergar o outro. Pior é quando passamos a nos enxergar no outro, como se ele fosse nosso reflexo. Iste é um verdadeiro abismo.

Impossibilidade desta Graça em nós. Quando agimos assim impedimos que a Graça de Deus manifeste-se em nossa existência. Limitamos o agir divino em nós. O texto diz que Jesus operou poucos milagres em Nazaré. Por quê? Porque a atitude de imperceptibilidade e a inveja da Graça no outro nos impede de sermos alcançados por esta mesma Graça. É o que Jesus deixa claro com a afirmativa de Mc 6.3 citada acima.

Cuidemos para que não sejamos infectados com a síndrome de Nazaré. Segundo Jesus, isso é muito fácil de acontecer.
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Nele, em quem sou e a quem sirvo!
Pr. Adriano Moreira

A esperança contra o imediatismo

Dia 27 de junho de 2016, o Pr. Adriano escrevia o seu primeiro texto para a Coluna Curtinhas.
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(Sl 40.1)
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Esperar!
Esta palavra soa como uma flecha no coração do homem hodierno. Nem mesmo o cristão consegue ver-se inabalável diante desta palavra. Este é um problema ad infinitum. O homem moderno é impaciente, apressado e sem tempo. Foi criado comendo miojo – que é preparado em três minutos, mingau de cozimento rápido, saboreando café instantâneo ou expresso, usando aparelhos domésticos de utilização rápida, tirando fotos em máquinas que revelam em um minuto, comunicando-se via on-line com o outro lado do mundo, recebendo correspondência via sedex e fazendo compras sem sair de casa. Isto tudo foi suficiente para transformar esta geração numa geração imediatista, ou seja, impaciente, apressada e sem tempo a perder. Afinal, tempo é dinheiro. Esta realidade está tão impregnada na sociedade e no dia-a-dia das pessoas, que nem a igreja, que deveria ser o exemplo em matéria de esperança e paciência, foi poupada desta febre. Até a liturgia da igreja tornou-se imediatista. A duração dos cultos cada vez menor, e com menos tempo para a pregação, promete soluções rápidas de todos os problemas, respostas imediatas de todas as orações e um Deus-servo de prontidão, sempre pronto para nos servir. Basta apertar o botão da fé, e Ele entrará em ação. Quer “matar” um crente? Mande-o esperar no Senhor. Ninguém quer esperar. O jovem não quer esperar pelo casamento no Senhor, o pedinte não quer esperar pela resposta da oração, o enfermo não quer esperar pela cura, o pregador não quer esperar pelo resultado da mensagem, em fim, ninguém quer esperar.

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A Bíblia sagrada nos ensina a esperar. Jesus mandou seus discípulos esperarem (Lc 24.49). A igreja está firmada na “Viva Esperança”(1 Pd 1.3). Paulo disse que “Em esperança somos salvos” (Rm 8.24). Portanto, libertemo-nos desse espírito imediatista, que tanto nos impede de sermos abençoados, e esperemos com paciência no Senhor… Ele ouvirá o nosso clamor.
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NEle, em quem sou e a quem sirvo!
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Pr. Adriano Moreira

Os chamados para morrer

“… Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto.” (Jo 12.24)
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Quando penso no chamado do Evangelho, me vem à mente figuras emblemáticas que traduzem este chamado de forma arquetípica, poetizada e simbolizada. Figuras estas que nos possibilitam entender melhor o significado das verdades que cada uma carrega. Quão quanto, por um lado, o chamado do Evangelho seja um chamado para a vida eterna, portanto, um chamado a vida; na existência, no caminhar diário com Deus, este chamado é para a morte. Isto porque, a experiência de conversão implica em morte de uma velha natureza para o nascimento de uma nova criatura que, coletivamente, produz uma igreja autentica. Destes emblemas que traduzem o chamado do Evangelho para o morrer diário, desejo valer-me de três.

Nosso chamado é para sermos sal da terra. Este emblema é usado por Jesus em Mt 5.13 significando que nosso chamado no Evangelho é para a morte das aparências. Num mundo dos holofotes e da super valorização das aparências, somos chamados a dissolvermo-nos na terra em que habitamos e temperarmos o lugar em que vivemos. Ou seja: sal só tempera quando desaparece e se dissolve no alimento. Enquanto sal no saleiro, portanto visível, não tempera nada. Só se salga quando se dissolve. Este é o nosso chamado no Evangelho como igreja autentica: diluição do estereótipo do ser.

Nosso chamado é para sermos semente na terra. O texto supracitado afirma que uma semente não produz se, caindo na terra, não morrer. Para produzir precisa morrer. Isto fala da morte do ser, do si mesmo, da essência adâmica que existe em nós. Para que aja vida é preciso que aja morte. Cristo nos deu vida pela sua morte vicária. Este é o chamado para quem deseja frutificar no caminho. Estaríamos dispostos a morrer por uma causa? Ou, ainda, pela causa das causas: o Evangelho.

Nosso chamado é para sermos sacrifícios vivos. Este é o apelo de Paulo aos Romanos no capítulo 12. De acordo com o contexto, a morte proposta é da vontade e dos desejos humanos para submissão a vontade de Deus. A não conformidade com este século é um processo de morte dos desejos, aptidões e seduções deste tempo presente. Este é o nosso chamado no Evangelho: submissão completa a vontade de Deus. Entrega total aos propósitos divinos. É isto que gera a autenticidade da comunidade chamada igreja.

Não sei o quanto se sente chamado por Deus. Ou, o quanto se encherga igreja autentica. Mas, se esta é a sua convicção, saiba: este chamado não é para aparecer, nem para manutenção de seu ego, tão pouco para vitalizar sua vontade e desejos, mas para um morrer contínuo e diário que redundará em vida eterna em Cristo Jesus. Este é o chamado do Evangelho.
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Nele, em quem sou e a quem sirvo!
Pr. Adriano Moreira